Eu gosto de uma casa que tenha ritmo. Há descanso nos gestos conhecidos: os sapatos depois do pequeno-almoço, uma história antes de dormir. Mas há dias em que uma só palavra parece ocupar todos esses momentos: «depressa». Depressa para calçar, para acabar de comer, para voltar, para dormir. Quando a casa sossega, pergunto-me se houve alguma coisa que a minha filha tentou contar-me e que eu ouvi só pela metade, já presa à tarefa seguinte.

Não escrevo isto para me acusar, nem para te acusar. Conheço o cuidado escondido nessa pressa: chegar a horas, alimentar, não esquecer ninguém. Talvez seja por isso que dói termos estado perto dos nossos filhos sem conseguir demorar-nos com eles. O amor estava ali. Também o cansaço.

Não quero perder a rotina familiar que nos ampara. Uma criança descansa no que reconhece; eu agradeço não ter de inventar cada manhã. Quero que ela se abra quando alguém precisa de colo, uma pergunta se demora ou a mãe já não consegue correr. Foi desse desejo que nasceram estes sete sinais. Nenhum deles mede o teu amor.

1. «Depressa» tornou-se a palavra mais repetida da casa

O fecho do casaco não sobe, um sapato desapareceu, a criança ainda quer acabar a frase que começou à mesa. Tu vês o relógio e já sabes que um atraso fará cair o resto da manhã. A pressa na tua voz tem muitas vezes a forma de uma responsabilidade que carregas sozinha.

Há horas em que é preciso sair a correr. O que cansa é viver como se todas as horas fossem essas. Em vez de te pedires mais paciência, olha para a passagem do dia que mais vos aperta. Podes dar-lhe uns minutos de folga? Sobre esse esforço de abrandar quando o tempo escapa, deixei também uma reflexão sobre cultivar a paciência na parentalidade.

2. Um imprevisto pequeno parece desorganizar o dia inteiro

A água entorna-se à saída. É só água: um pano bastaria. Mas a voz sobe, porque atrás daquele copo esperam a hora de entrada, o trabalho, a refeição que ainda não preparaste. Depois vem a culpa pela maneira como falaste.

Se aconteceu, podes pedir perdão à criança sem fazer desse instante a medida de toda a tua maternidade. A irritação também pode mostrar que já não há margem para um copo de água derramado. Uma rotina que respira não evita o acidente; deixa tempo para o limpar. Talvez possas guardar um intervalo vazio antes da saída mais difícil. Se hoje não couber, não juntes essa impossibilidade à lista das tuas falhas.

3. O brincar livre e o tempo lá fora são sempre os primeiros a desaparecer

Fica sempre para depois a volta ao quarteirão. A criança está no chão a fazer uma casa com panos, mas já é hora de sair. Prometemos que continua quando voltar; à noite, os panos estão arrumados e o dia terminou.

Não precisamos de defender o brincar enumerando tudo o que ensina. Às vezes, uma criança precisa apenas de ficar junto da mesma poça ou de recolher folhas sem que ninguém espere um resultado. Também há dias em que o exterior não cabe, e não há uma falha nisso. Se é sempre o primeiro a desaparecer, talvez mereça um lugar protegido: um passeio habitual sem ficha, sem destino útil. Escrevi mais sobre a importância do jogo livre.

4. Até os cuidados se tornaram tarefas a terminar

Ao lavar-lhe o cabelo, já pensas na cozinha. Pões-lhe a mão nas costas para o conduzir ao quarto e, quando ele se encosta um pouco mais, apetece-te dizer: «Agora não.» Conheces o peso desse «agora não» quando foi precisamente o teu colo que ele procurou.

Também tu precisas de chegar ao fim do dia. Não há obrigação de transformar cada banho num instante luminoso; uma mãe cansada não ama menos por querer que todos durmam. Mas pode haver um cuidado ao qual devolver presença sem roubar forças aos outros: a conversa enquanto abotoas o pijama, um beijo sem olhar para o relógio, a última página lida até ao fim. Se hoje não conseguires, amanhã a porta desse encontro continua aberta.

5. A criança parece resistir a tudo

Pedes que guarde os lápis quando ainda está a desenhar. Chamas para jantar e ela pede «só mais um bocadinho». O dia já te exigiu tanto que cada demora parece uma nova negociação a atravessar.

Essa resistência não conta a história inteira. Pode haver fome, cansaço, tristeza ou apenas o desejo de continuar uma coisa boa. Repara se acontece mais nos dias sem intervalos. A criança sabia que o desenho ia terminar? Podes avisá-la e ficar ao seu lado enquanto guarda os lápis. Talvez isso alivie uma parte da luta. Se ainda disser «não», podes manter o limite com doçura. Nem tudo depende de acertares no horário.

6. A mãe está em todo o lado, mas já não consegue pousar por inteiro

Estás sentada à mesa, mas uma parte de ti já se levantou. Lembra-se do pão para amanhã, da roupa que não secou, de uma mensagem da escola ou de um livro que é preciso devolver. A criança conta-te uma pequena descoberta e tu queres escutá-la. Queres mesmo. Só que também és quem guarda, em silêncio, o que vem a seguir para todos.

Podemos estar perto dos nossos filhos e sentir que já não chegamos inteiras a lado nenhum. Não por falta de amor: ninguém consegue ser, sem descanso, o lugar onde tudo se recorda e se resolve. Se tens com quem repartir esse peso, pede que essa pessoa assuma uma tarefa inteira. Se não tens, deixa hoje alguma coisa esperar. Não transformes sequer essa pausa numa obrigação de descansar bem. Também escrevi sobre o papel do parceiro no dia a dia de uma maternidade intensiva, porque a vida da casa precisa de mais do que os ombros de uma mãe.

[NOTA PESSOAL DA ALEXANDRINA: acrescentar, se desejar, um momento verdadeiro em que percebeu que estava fisicamente junto da filha, mas com o pensamento já preso na tarefa seguinte.]

7. A rotina familiar funciona, mas já não sabemos o que estamos a proteger

Há atividades belas que se tornam difíceis de receber quando chegam todas na mesma semana. Cumprem-se os horários, mas a conversa à mesa perde-se a meio. Ao domingo, ainda tentamos alcançar aquilo que ficou por fazer. Talvez até a oração da noite caiba apenas num sinal da cruz traçado à pressa na testa da criança.

Não é a fé que falhou, nem a família. Deus pode receber também uma oração cansada. Mas esta inquietação convida-nos a perguntar: o que queremos proteger neste tempo da nossa vida? Talvez a conversa à mesa, o descanso de quem cuida, o tempo diante de Deus sem relógio na mão. A resposta pode amadurecer devagar.

Não é preciso refazer a vida inteira para deixar entrar um pouco de ar

Talvez possas retirar uma coisa que ficou por hábito ou por receio de desapontar. Se ensinas em casa, escrevi sobre simplificar o currículo sem culpa; qualquer família pode precisar dessa liberdade de voltar a escolher.

Depois, abrir uma margem junto da hora mais apertada. E proteger um encontro: a refeição em que ninguém se levanta logo, a volta à rua, o deitar em que cabe uma pergunta a mais. Há pessoas que precisam de caber no próprio dia.

Desde as primeiras páginas da Escritura, trabalho e descanso recebem o seu lugar. Gosto de me lembrar disso quando o repouso parece uma coisa a conquistar depois de tudo feito. Numa casa, tudo nunca fica feito. Reconhecer os limites é também confiar: não carregamos sozinhas o crescimento dos nossos filhos, nem provamos a Deus o amor pelo grau do nosso cansaço.

Amanhã ainda haverá casacos por encontrar e horas a cumprir. Talvez voltes a dizer «depressa»; isso não apaga o teu cuidado. Mas, quando a casa sossegar, podes lembrar-te de uma pequena janela que abriste: uma frase escutada até ao fim, uma mão que ficou na tua mais um instante. Às vezes, é por aí que a rotina familiar começa a respirar outra vez.

Preparei a folha imprimível «A nossa rotina precisa de respirar?» para te acompanhar nesta observação. Podes recebê-la ao inscrever-te na newsletter de Mãe Alquimia. Não há pontuação nem resultado: apenas lugar para escrever o que pesa, o que pode esperar e o que desejas guardar.

Escrito por Alexandrina Cabral

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