Quero que a minha filha possa contar-me um erro sem começar por medir o meu
rosto. Que encontre em mim alguém capaz de escutar o que aconteceu, mesmo
quando houver alguma coisa difícil para dizer. É um desejo simples de escrever e
exigente de viver: dentro da vontade de educar cabem também a pressa, o receio
de sermos demasiado permissivas e aquele cansaço que nos encurta a paciência.
Penso muitas vezes na delicadeza desta responsabilidade. A pessoa a quem
mostro que se enganou é a mesma que procuro consolar quando alguma coisa
lhe dói. As duas tarefas encontram-se na minha voz. Gostava que a firmeza de
uma pudesse conservar a ternura da outra.
Talvez também tu conheças esta inquietação. Queres ensinar o teu filho a
respeitar os outros, a cuidar das coisas, a aceitar que precisa de tentar
novamente. E queres que, no meio dessa aprendizagem, ele continue a sentir que
pode aproximar-se de ti.
É aí que começa, para mim, a pergunta sobre como corrigir sem humilhar: no
cuidado com aquilo que permanece entre nós depois de a correção ter sido feita.
Quero que ela ajude a minha filha a pensar no que fez, no que isso provocou e no
que está ao seu alcance fazer agora.

O gesto pode ser corrigido sem definir a criança

Uma criança empurra outra durante uma disputa. Cabe-nos interromper,
proteger quem foi magoado e ajudar quem empurrou a assumir o que fez.
Podemos dizer: «Empurraste o teu amigo. Ele magoou-se. Vamos ver como está.»
Há um acontecimento concreto diante de nós, com consequências que precisam
da nossa atenção.
Quando dizemos «És mau», porém, a censura passa a abranger a criança inteira.
O gesto desaparece dentro de uma definição. E torna-se mais difícil perceber por
onde se começa a mudar: como se corrige aquilo que, aparentemente, se é?
Também palavras como «sempre» e «nunca» merecem cuidado. Um copo
entornado pode trazer atrás de si todas as distrações da semana. A criança deixa
de estar perante aquele descuido e vê-se obrigada a responder por uma história
inteira, contada na voz de quem está zangado.
Procuro guardar esta diferença quando penso na educação da minha filha. Quero
poder pedir-lhe que emende uma palavra, cumpra uma responsabilidade ou reconheça uma injustiça sem transformar cada dificuldade numa descrição do
seu carácter. A verdade sobre um erro deve ser suficientemente precisa para
permitir um passo seguinte.
Preservar a dignidade de uma criança exige esse cuidado e exige também
coragem para lhe mostrar o que fez. Quem foi magoado precisa de proteção.
Quem magoou precisa de aprender a agir de outra maneira. Há lugar para
ambos no nosso cuidado.

O que a criança escuta para além das palavras


Ser corrigido pode trazer embaraço. Descobrir que magoámos alguém pode
provocar culpa e tristeza. São experiências diferentes da vergonha de nos
sentirmos diminuídos como pessoa, embora, na vida real, estes sentimentos se
possam misturar. O arrependimento pode orientar-nos para aquilo que fizemos e
que é possível reparar; a vergonha pode prender-nos à ideia de que há alguma
coisa errada connosco.1
Na relação educativa, esta distinção convida-nos a perguntar quanto espaço
sobra para escutar uma explicação quando a criança teme ser ridicularizada ou
rejeitada. Pode defender-se, negar, calar-se. Nenhuma destas reações, por si só,
nos permite saber tudo o que sente.
Não precisamos de ler cada lágrima como sinal de uma ferida profunda. Uma
observação desajeitada também não decide, sozinha, o futuro de uma relação.
Importa olhar para a maneira habitual como corrigimos, para a intensidade do
que aconteceu e para aquilo que fazemos depois.
Ainda assim, há gestos que podemos poupar-lhes: a ironia perante uma
dificuldade, a comparação com outra criança, o erro repetido à mesa para fazer
rir os adultos. Sempre que possível, uma correção merece alguma privacidade. A
presença de um público pode acrescentar um peso desnecessário àquilo que já
custa reconhecer.

Palavras que deixam ver o próximo passo


Uma das coisas que mais me ajuda a pensar a correção é perguntar o que a
criança poderá fazer depois de me ouvir. Saberá por onde começar? Ou ficará
apenas a saber que me desiludiu?
Perante uma pequena trapalhada, pode bastar: «A água entornou-se. Vamos
buscar um pano.» Se foi um acidente, há uma coisa prática a resolver. Se houve
imprudência, podemos ensinar a pousar o copo noutro lugar ou a transportá-lo
com mais cuidado. Não é preciso acrescentar uma censura ao que as mãos já
estão a aprender.

Numa dificuldade de aprendizagem, a precisão também ajuda: «Esta conta ainda
não está certa. Vamos ver juntos este passo?» A criança fica a saber onde precisa
de atenção. Podemos mostrar uma vez, deixar que experimente e dar-lhe tempo.
O encorajamento ganha consistência quando encontra uma ajuda adequada;
repetir que ela consegue não substitui explicar aquilo que ainda não
compreendeu.
Uma agressão pede outra urgência: «Não te posso deixar bater. Vou ajudar-te a
parar.» Primeiro, impedimos que alguém continue a ser magoado, afastando as
crianças ou interrompendo o gesto com o cuidado necessário. A explicação pode
esperar até haver condições para escutar. Uma conversa longa, naquele instante,
pode ser demais para quem ainda está dominado pela zanga.
Mais tarde, podemos procurar compreender o que aconteceu. Talvez tenha
havido uma provocação, um brinquedo tirado, uma frustração que a criança não
soube exprimir. Conhecer essas circunstâncias ajuda-nos a ensinar uma
alternativa. Faz parte da mesma conversa em que procuramos reconhecer o que
o gesto provocou.
Estas palavras não têm um poder especial. Uma formulação delicada, dita com
desprezo, pode ferir; uma frase imperfeita pode chegar com ternura. O tom, a
disponibilidade para escutar e a coerência dos nossos atos dão corpo ao que
dizemos. Por vezes, precisamos de falar menos e de permanecer um pouco mais
perto.


Ajudar a pensar nas consequências, sem deixar de estar perto


Há uma parte de mim que gostaria de conseguir pôr todos os limites sem
provocar tristeza. Mas o meu desejo de consolar a minha filha não pode obrigá-la
a receber serenamente cada decisão minha. Ela tem direito a achar difícil aquilo
que continua a ser necessário.
O teu filho pode chorar porque a brincadeira terminou, porque precisa de
guardar o que espalhou ou porque não lhe permites continuar uma discussão aos
gritos. Essa contrariedade, por si só, não significa que o tenhas humilhado.
Podemos acolher a emoção e manter o limite: «Podes estar zangado. Não podes
chamar-me nomes.»
Quando a zanga abranda, podemos perguntar: «O que aconteceu depois do que
fizeste?» E dar-lhe tempo para responder. Se a criança ainda não sabe, podemos
descrever o que vimos e ajudá-la a reparar em quem foi afetado. A conversa
precisa de espaço para o seu pensamento, sem continuar até ela dizer
exatamente aquilo que esperamos.

Algumas consequências nascem do próprio gesto, sem que eu as tenha de
inventar: um brinquedo que se partiu ao ser atirado pode já não servir para
brincar; um amigo magoado pode não querer continuar a brincadeira naquele
momento. Podemos acompanhar essa tristeza sem substituir logo o objeto nem
exigir que o outro volte à brincadeira. Há coisas que precisam de reparação, de
tempo, de cuidado. A realidade também tem alguma coisa para ensinar, e posso
permanecer ao lado da minha filha enquanto ela a compreende.
Ajudar a limpar o que entornou é uma reparação ligada ao gesto; afastar
temporariamente um brinquedo que está a ser atirado é um limite de segurança
decidido pelo adulto. Estas intervenções distinguem-se das consequências
naturais: somos nós que as propomos e precisamos de as manter
proporcionadas, compreensíveis e adequadas à idade. Diante de um perigo, a
nossa responsabilidade é intervir.2
A partir daí, a reparação ganha sentido. Um «desculpa» apressado pode encerrar
a conversa antes de a criança compreender o que aconteceu. «O que podes fazer
agora para ajudar?» convida-a a participar. Uma criança pequena precisará de
sugestões e da nossa companhia; uma mais crescida poderá pensar numa
solução e realizá-la com maior autonomia. Podemos ainda procurar, juntos, o que
a ajudará a agir de outra maneira quando a situação voltar.
Desejo que a minha filha aprenda a reconhecer o que os seus gestos mudam à
sua volta, mesmo quando não estou por perto. O meu afeto acompanha esse
trabalho. Não deve tornar-se uma recompensa que ela precisa de recuperar
através da obediência.


Quando também eu preciso de pedir desculpa


É fácil escrever sobre palavras cuidadosas num momento de silêncio. A
maternidade acontece também quando dormimos pouco, somos interrompidas
pela décima vez e ainda há uma refeição por preparar. Uma recomendação que
ignore esse cansaço pode tornar-se mais uma exigência pousada sobre uma
mulher que já mal consegue descansar.
Se hoje falaste de uma maneira que te custa recordar, gostava que pudesses
olhar para isso sem te abandonares à acusação. Há uma diferença entre
reconhecer uma falha e concluir que és uma má mãe. Também para nós, uma
descrição justa do que aconteceu deixa mais espaço para mudar do que uma
condenação inteira.
Podemos voltar à criança quando estivermos mais calmas: «Usei palavras
injustas contigo. Não devia ter dito aquilo. Desculpa. Vou fazer uma pausa
quando sentir que estou a perder a calma.» As palavras precisam de corresponder ao que aconteceu, sem um “mas” que devolva à criança a responsabilidade pela nossa reação.
Ela pode precisar de tempo para se aproximar. Não lhe cabe consolar-nos,
garantir que somos boas mães ou perdoar imediatamente. Cabe-nos escutar,
corrigir a injustiça e dar continuidade ao compromisso que assumimos.
Talvez isso implique interromper uma conversa antes de gritar, depois de
garantir que a criança fica segura. Talvez seja necessário repartir melhor o
trabalho em casa, descansar ou procurar apoio se as explosões se repetem. Um
pedido de desculpa torna-se mais credível quando começa a mudar alguma coisa
na vida comum.3
Na minha fé católica, a certeza de que a minha filha é amada por Deus antes de
qualquer acerto ajuda-me a recordar a sua dignidade quando erra. Também me
chama à humildade de reconhecer os meus erros. A misericórdia pede verdade e
oferece a possibilidade de regressar. Preciso dela também na maneira como olho
para mim.


Deixar lugar à próxima tentativa

Não sei que palavras ficarão na memória da minha filha. Desejo que, entre elas,
haja palavras a que possa voltar quando alguma coisa lhe correr mal. Que
consiga reconhecer uma falha sem se desprezar e pedir ajuda sem precisar de
esconder primeiro aquilo de que se envergonha.
Esse desejo ganha forma em coisas pequenas: uma explicação retomada com
paciência, uma injustiça reconhecida, a coragem de manter um limite sem retirar
a ternura. Ganha forma também quando aceito que ela pode continuar
contrariada e que a nossa conversa talvez precise de mais tempo.
Educar com respeito pede-nos este trabalho repetido. O filho real aprende
devagar algumas coisas, resiste a outras, surpreende-nos. A mãe que o
acompanha vai conhecendo melhor a criança e os seus próprios limites. Nenhum
dos dois chega ao fim do dia com tudo aprendido.
Quero continuar a corrigir a minha filha sempre que ela precisar de mim para
compreender, reparar ou tentar outra vez. E quero que, depois de lhe mostrar o
erro, as minhas mãos continuem a ser mãos para onde ela possa estender as
suas.

Escrito por Alexandrina Cabral

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